quarta-feira, 20 de agosto de 2008

O fato humano
Improvisado, o grito sai mais para gemido e escorrega garganta afora, de modo a puxar após si o que de dor encontra pelo caminho. Geme a alma o seu tamanho, sofre nele o seu acanhamento e ensaia ser grito, embora saiba não ter espaço para tal. Dum pouco de cada estação da vida traz um gemido, um sofrimento, um desalento de ser contingente ao tempo e ao espaço, seus inimigos natos.
O fato humano é uma bobagem doída, um teatro sem graça, uma ida vã ao banheiro, essa disenteria sem matéria, esse vômito sem substância, ânsia desatinada de querer tudo podendo nada. Carga leve de conseqüências graves, crença sublime num credo que não se fez.
Eis aí o retrato revelado, já gasto pelo tempo, da existência humana. Essa é a existência como desenhada pelo ideário político/religioso contemporâneo. Falta-lhe o mapa interior que a leve ao destino, o senso de transcendência, a capacidade de ver para além dos véus da lida corriqueira. Romper com isso é dar uma chance à felicidade, é ser humano.

Onaldo A Pereira

Um comentário:

Cesar Cruz disse...

És um poeta, meu caro!
Parabéns, gostei deste!

Cesar